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  Para o físico e professor da USP Luis Carlos de Menezes, aprender Ciências deve ser um prazer.
 
 

Entrevistado

1 - Qual foi o momento em que o senhor começou a desenvolver esse pensamento sobre o aprendizado de Ciências e em que se baseou? (Thomas Johannes Schrage, Diadema/SP)
As idéias que desenvolvi sobre o aprendizado de Ciências foram resultado de minha atuação como professor. Percebi que o aluno que se envolve no desafio e no prazer do conhecimento científico ganha autonomia e iniciativa na busca de mais informações e conhecimentos.

2 - O que o professor de Física deve fazer para desenvolver suas aulas nesse contexto do prazer se a primeira preocupação do jovem aluno e das escolas no Ensino Médio é o vestibular? (Jonas Pereira de Souza Junior, São Paulo/SP; Thomas Johannes Schrage, Diadema/SP)
O aprendizado prazeroso também serve para enfrentar exames e outros desafios na vida, de forma que não há necessariamente contradição entre o saber que se desenvolve com gosto e o que prepara para vestibulares. No entanto, o mero “treinamento pré-vestibular” é um modo lamentável de formação, é quase uma deformação. É como formar um nadador olímpico que não gosta da água e, depois da prova, prefere desaprender a nadar. Por isso, tudo deve começar com o sabor do saber. O aluno que percebe que está crescendo em sabedoria não se entediará nem temerá desafios.

3 - E como devem ser as avaliações de acordo com esse pensamento? (Marily Terezinha Baptista Dechichi, Andradas/MG)
As melhores formas de avaliação não precisam estar separadas das melhores formas de aprendizado. Questões estimulantes, tarefas que desenvolvam a iniciativa de quem aprende e problemas tratados em seu contexto real são alguns exemplos de atividades de aprendizado cujos resultados permitem a alunos e professores perceber o quanto efetivamente já se aprendeu ou que dificuldades ainda precisam ser superadas.

4 - Na sua opinião, a experimentação é fundamental para o ensino de Física no Ensino Médio? Se a resposta for afirmativa, como viabilizar essa proposta, levando em conta que os investimentos em salas de Física são muito altos? (Adeilson Nascimento Souza, Porto Velho/RO; César Augusto Carneiro Betioli, São Paulo/SP)
Certamente, é importante que se realizem diferentes modalidades de experimentação. No entanto, na educação básica, elas devem ser feitas preferencialmente em situações vivenciais, portanto, não em laboratórios formais. Medidas de dinâmica podem ser feitas observando-se veículos, que também se prestam para avaliações de rendimento (máquinas térmicas). Em qualquer residência há inúmeros aparelhos elétricos, sistemas motores ou resistores que podem ser investigados na relação potência x tensão x corrente, assim como uma série de radiações que podem ser avaliadas quanto a sua natureza e radiotransparência (como as da radiofreqüência dos telefones sem fio, o infravermelho dos controles remotos ou, ainda, as microondas dos fornos). São incontáveis os exemplos, mas é preciso ter cuidado para não sugerir nada que envolva risco pessoal.

5 - Na sua opinião, como anda atualmente a pesquisa científica em nosso país? Existe um verdadeiro incentivo para a formação de pesquisadores? (Socorro Luz Catunda, Fortaleza/CE)
Há muito tempo há Ciência de muita qualidade sendo feita no Brasil. O que nos distingue de outros países grandes é nosso número relativamente pequeno de pesquisadores e o fato de ainda serem limitadas as oportunidades de trabalho nas universidades públicas e comunitárias, que são as instituições onde se faz investigação científica em nosso país.

6 - O que o senhor pensa a respeito dos alunos que falam que nunca usarão Física, Química e Biologia no futuro? O que fazer para despertar seu gosto pelas Ciências? (Antonio Diogo Hidee Ideguchi, São Paulo/SP; Amanda Macchion, São Paulo/SP; Luisa Dalla Valle Deisler, Canoas/RS)
Para identificar a possível causa de um curto-circuito doméstico, é necessário ter uma formação básica em Física. Para compreender o sentido do pH de um alimento, como uma água mineral, ou de um cosmético, é preciso possuir uma formação básica em Química. Para compreender certas formas de contágio que resultam em enfermidades, deve-se ter uma formação básica em Biologia. Tudo isso constitui um equipamento pessoal de cidadania, cuja ausência é uma forma de analfabetismo. Portanto, não é só “no futuro” que se faz uso das Ciências, é já e sempre!

7 - As Ciências devem realmente ser ensinadas a todos ou poderiam ser opcionais a partir do Ensino Médio, respeitando-se as aptidões e preferências de cada indivíduo? Estamos realmente ajudando aquele aluno que gosta de artes e pintura forçando-o a aprender logaritmos ou cinemática? (Marcos José Vergne de Moraes, Salvador/BA)
Há uma parte da cultura científica, como a visão de mundo cosmológica ou os conhecimentos práticos para o cotidiano, que deveria ser estendida a todos, seja por sua beleza e sentido cultural, seja por sua utilidade essencial. No entanto, acho que parte do Ensino Médio deveria atender às preferências dos alunos, que precisam aprender a escolher e buscar seus próprios caminhos.

8 - Em artigo publicado no jornal A Tarde (BA) em 10/10/2005, é apresentado o resultado do desempenho dos alunos brasileiros no teste de avaliação da Unesco em relação ao conhecimento de Ciências e Matemática:

A aptidão para ciência e matemática não é das melhores entre os jovens brasileiros, que ficaram em 42.º lugar no ranking entre os 43 países participantes do estudo Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), sigla em inglês, da Unesco e Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Hong Kong/China (550 pontos) e Finlândia (544) tiveram o melhor desempenho na avaliação do Pisa de 2003, que focou a área de matemática e sua aplicação nas ciências. A média geral dos alunos brasileiros foi a mais baixa (356 pontos), ficando atrás da Indonésia (360 pontos) e Tunísia (359).

Em outro trecho do mesmo artigo, afirma-se que: “Apesar do baixo rendimento, alunos brasileiros estão entre os que mais lêem no mundo nas horas vagas. 10% dedicam duas horas ou mais por dia à leitura por prazer, mas o nível de compreensão não é satisfatório”. O senhor acha que esse resultado expressa a realidade nacional? E de que forma pode-se comparar esse instrumento de avaliação da Unesco com o Enem? Ambos apresentam o mesmo resultado? Em caso contrário, deveriam indicar o mesmo resultado? (Bohdan Metchko Junior, Curitiba/PR)
Tanto avaliações internacionais como o Pisa quanto exames nacionais como o Saeb e o Enem mostram uma realidade indiscutível, que é a má qualidade de nossa educação em geral e de nossa formação científica em especial. Um exame como o Enem, ao avaliar competências ou habilidades, pode não especificar diretamente o quanto alguém sabe sobre Física, mas dá uma boa idéia de seu preparo. Há pequenas discrepâncias por essas e outras razões, mas é preciso reagir à indicação geral, que aponta uma perversa má distribuição de educação entre os jovens brasileiros, que acompanha uma perversa má distribuição de condições de vida e de renda.

9 - Na sua opinião, o contato dos alunos com as Ciências, especialmente na educação pública, não seria tardio? Esse contato poderia ser, além de antecipado, mais qualificado? Como? (Marcos Flavio Rodrigues Paim, Curitiba/PR)
Desde a Educação Infantil e fundamental, há elementos de “Ciências” que podem ser promovidos. A observação de diferentes espécies vivas e de seu convívio, de diversos materiais e seu uso, de distintos processos e as formas de energia de que dependem: eis alguns exemplos de coisas que a gente pode aprender a nomear, classificar, compreender e avaliar desde muito cedo, sem se preocupar inicialmente com quantificações.

10 - Como está a difusão do material produzido pelo Grupo de Reelaboração do Ensino da Física — GREF — no universo brasileiro? De seu ponto de vista, qual foi o impacto do uso desse material entre jovens e educadores? (Bohdan Metchko Junior, Curitiba/PR)
O GREF deixou importantes repercussões entre educadores brasileiros. Até mesmo os Parâmetros Curriculares Nacionais e o Enem têm, em certos aspectos, alguma relação de filiação com o GREF, que já ultrapassou duas décadas. Creio que seu impacto é difuso, por intermédio de educadores que fizeram e fazem uso dele, além de muitos autores que, mencionando ou não, deram alguma forma de continuidade a suas idéias.

11 - O projeto do GREF está sendo continuado? De que forma? (Bohdan Metchko Junior, Curitiba/PR)
As leituras do GREF para alunos, disponíveis pela Internet sem custo, são uma das formas pelas quais têm se dado prosseguimento a ele. Há poucos remanescentes da equipe central do GREF na USP, mas ainda existem muitos estudantes e professores de Física que “mantêm acesa a tocha olímpica”.

12 - Como tornar uma aula de Física interessante e prazerosa para uma turma de 40 alunos? (Cristiane de Freitas Araújo, Gama/DF)
Alternar as intervenções dos professores com atividades dos estudantes em grupo, assim como conduzir aulas de diferentes tipos (expositivas, de discussão de vídeos, de apresentação de atividades de campo) são algumas formas de animar e dar maior eficácia às aulas regulares.

13 - Quando e como o senhor teve certeza de que a Física seria sua carreira? (Hélio Mamoru Yoshida, São Paulo/SP)
Às vezes, mesmo atualmente, tenho dúvidas se Física é “minha carreira”. Na realidade, creio que sou, sobretudo, um educador, um professor que vê as Ciências como essenciais para se compreender e transformar o mundo. Além disso, creio que as Ciências Humanas devem ser também apreendidas e, sempre que possível, combino em meus cursos aspectos das Ciências da natureza com os das humanidades.

14 - Do que mais o senhor gosta na sua profissão? Que conselhos daria a alguém que pretende seguir o mesmo caminho? (Rhaian Pereira de Souza Oliveira, Curitiba/PR)
Gosto de lidar com gente, especialmente com os jovens, tratando de idéias, potencialidades, projetos. As Ciências são um “prato cheio” para se discutir o mundo natural, assim como a economia, a cultura, os problemas humanos. Não acho que diferentes pessoas “sigam o mesmo caminho”. Por isso, meu conselho é que cada um encontre sua vereda, invente seu próprio caminho ou, como disse o poeta espanhol Antonio Machado, “caminante no hay camino, se hace el camino al andar...”.

 

 

   

 



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