Leia as respostas de Esmeralda Ortiz às perguntas
dos participantes da Entrevista Interativa.

   
 

Esmeralda Ortiz, 21,
é autora do livro
Esmeralda - Por que
não dancei
(Editora Senac,
208 páginas, R$ 15).





     
 


Como você se sentia quando, aos 8 anos, tinha que pedir esmola todos os dias com sua mãe? (Regiane Camargo e Isabela Passos)

Eu achava muito triste. Às vezes eu queria brincar e não podia porque tinha que pedir esmola. Às vezes eu queria ir para a escola e não podia porque tinha que pedir esmola para sustentar a casa. Era difícil para mim a humilhação... As pessoas falam um monte! Fecham a porta na tua cara! Foi muito difícil, muito doloroso, mas eu sabia que o único meio de me sustentar naquele momento era pedindo esmola.

Por que você fugiu de casa? O principal motivo para as crianças fugirem são os maus-tratos que recebem em casa? (Regiane Camargo, Cayo Vieira, Flávia Jannini)
O que desestruturou a minha família foi o álcool, que tira o amor, o afeto e gera a violência. E uma coisa leva à outra. A minha família era muito pobre, minha mãe nunca estudou e sofri abusos sexuais na minha própria casa. Tudo isso fez com que eu fugisse. Mas a origem do problema está em uma coisa só: o álcool.

Ainda existem mães que batem nos filhos? Por que você apanhava tanto? (Alessandra Figueira e Gustavo Semmler)
Apanhar, às vezes, não é motivo para alguém sair de casa. Todo ser humano, ou a maioria das pessoas, já tomou uns tapas quando era pequeno. Só que eu apanhava constantemente. E outra: sei lá, a minha mãe não tinha paciência para cuidar de nós e, às vezes, quem está com um problema desconta nas crianças. A minha mãe tinha problemas e descontava em mim e nos meus irmãos.

Como foi viver na rua, ficar sem família, e o que você sentiu nesses anos todos? (Cristiane Bevilacqua, Liz Araújo, Gleidson Garcia, Vilmar Pacewicz Jr. e Gabriela Pinto)
Eu sempre tinha a esperança de achar alguém que um dia cuidasse de mim. Uma mãe, né? Para mim era muito difícil, mas era obrigada a aceitar aquilo porque tinha a idéia fixa de que, para mim, era melhor estar na rua que em casa, mesmo sabendo que ia ficar sem mãe, sem carinho e sem nada. Mas eu sonhava em ter um dia uma mãe para me dar proteção.

O que você pensava quando estava na rua e como você via o seu futuro? Você pensou em se prostituir? (Mariana Reis, Henry Barthman e Rebeca Hartherly)
Em me prostituir não, porque eu tinha traumas. Fui muitas vezes estuprada violentamente e tinha medo de homens. Eu fiquei quase dez anos sem me relacionar com ninguém. Só agora eu comecei, porque só agora estou me recuperando desse trauma. O processo é lento. Tudo era muito difícil, mas em me prostituir eu nunca pensei. Sobre o meu futuro, eu sonhava em ser juíza para prender todos os policiais que me batiam (risos).

Sobre a violência de que você foi vítima, quem tratou você com mais violência, foram os inspetores da Febem? (Patrick Lucas)
Foi a sociedade. Foi a discriminação, o preconceito, a exclusão, o apartheid, o fascismo. É isso que a escola não fala. Então, a maior violência foi a falta de direito de estudar, trabalhar, levar uma vida digna, ter uma família. O direito da minha mãe também foi violado porque ela também era pobre e tinha que pedir esmola para sobreviver.
A única alternativa que a sociedade lhe dá é a Febem, porque você está muito revoltado. É tudo isso que eu falei. A maior violência é viver numa sociedade hipócrita, fascista entre aspas, entendeu? As pessoas têm que começar a aprender sobre essa questão, porque é a realidade! A Febem foi dura, cruel, eu fui parar lá e apanhei, mas a sociedade como um todo também foi. E a alternativa que ela lhe dá é: Roubou? Febem!
Lógico que não fui coitadinha. Eu roubei, usei drogas, trafiquei. Mas uma coisa gera a outra, se você for buscar a origem do problema... E muitas pessoas e as escolas não falam sobre isso. Falam das conseqüências, mas não das causas. E é uma coisa que deveria ser discutida. Você vai à escola e não aprende quase nada sobre as questões reais. Não adianta viver no passado e ignorar o que está acontecendo ao seu redor. E é preciso falar de uma maneira que os alunos entendam.

Por que você roubou e virou traficante? (Vanessa Souza e André Cavalheiro)
É um instinto de sobrevivência. Às vezes, ninguém fica com dó de você e lhe dá um prato de comida. Às vezes, você tem que agir por compulsão, roubar mesmo. E na rua isso acaba se tornando freqüente... Você quer usar droga e já sabe que roubar é mais fácil. Mas tudo isso é um instinto de sobrevivência, é uma situação que a sociedade impõe para você. Ela lhe dá a rua, mas não uma escola e o direito de viver uma vida digna. Então você acaba escolhendo a outra alternativa: roubar, usar drogas, traficar, se revoltar. Para a sociedade, para quem está lá em cima, é melhor você usar droga, porque assim ela não vai gastar dinheiro com você. Daqui a um ano você vai estar morto e ser um problema a menos, não é verdade?

Por que você usou drogas? Como isso acontece na rua: as crianças aceitam de alguém, a polícia é quem as ajuda a obter a droga ou elas acabam experimentando drogas porque ali todo mundo usa? (Rafael Damasceno, Patrick Lucas, Mariana Cunha, Luca Bacille, Isabela Passos, Aline Batista, Karla Nascimento e Amanda Santos)
Meu contato com drogas sempre foi muito próximo. Em casa tinha álcool, na rua tinha droga. Você acaba tendo que escolher, porque a dor é imensa, assim como o medo, o vazio, a carência. A droga, naquele momento, serviu de refúgio. Drogada, eu não sentia medo, não sentia frio, não sentia discriminação. Mas depois comecei a ficar dependente. Vivia para usar, usava para viver. Então voltei a ter medo de tudo e foi muito difícil.

Você sabia dos riscos de usar drogas? Qual a pior conseqüência que isso lhe trouxe? Você teve medo de não se curar do vício? (Mariana Tamura, Cristiane Bevilacqua e Carolina Teodoro)
Eu tinha consciência do risco que estava correndo por usar drogas. Era um jogo, né? Eu não sabia quem ia perder, e eu perdi para elas. Só não dancei. Mas as drogas causaram muito sofrimento para mim. Todos os momentos em que usava crack, eu sofria muito. Não tomava banho, não comia, vivia em depressão, no vazio. Foi horrível a minha vida com o crack.

Você superou os traumas da violência, inclusive sexual, das drogas e dos abusos de que você foi vítima? Que conseqüências isso trouxe na sua vida? (Raquel, Patrick Lucas e Isabela Passos)
Descobri que tinha que perdoar o meu passado para viver um presente legal - eu conto isso numa parte do livro. Se viver com ressentimentos dos estupros, nunca vou me liberar desses traumas, entendeu? Se viver com ressentimento da minha mãe por tudo que ela fez, nunca vou dar um passo à frente. Não posso ficar vivendo as coisas lá atrás, senão fico naquele triângulo: culpa - raiva - medo. Então, já me recuperei 90%, mas ainda estou me recuperando. Tive que perdoar meu passado, em terapias, em terapias de grupo. Partilhando bastante essas minhas coisas com honestidade, eu vou me libertando, mas o processo é lento porque, quando você é vítima, fica mais difícil. Eu aprendi a perdoar e as coisas vão acontecendo. Se vivesse com ressentimento, visualizando o meu passado, nunca conseguiria crescer.

Quem a ajudou e quem lhe deu apoio para que você saísse da rua? (Antonio Valle Jr., Mariana Andrade, Érica Falcão)
Uma ONG chamada Projeto Travessia e também a minha força de vontade de lutar contra tudo isso. Eles foram à Praça da Sé, fizeram um trabalho comigo e depois me resgataram da rua e arrumaram uma casa para eu morar.

Como diz o título do seu livro, por que você não dançou? E como arranjou forças para mudar de vida e superar os preconceitos? (Lilian Turner, Regina Albuquerque, Daiane Freitas, Millena Souza e Carla Febel)
Eu não dancei porque descobri o amor pela vida. E também porque vi que não dava mais. A droga tinha me vencido e eu tinha que me libertar disso. Parei com a dor e fui descobrir o amor quando já estava me recuperando. Eu tinha tudo para dançar...

Como a fé a ajudou em sua recuperação? Você acredita em Deus ou em reencarnação? (Isabela Passos)
Eu acredito muito em Deus. Nos piores momentos, Deus sempre esteve comigo. Sempre senti Deus ao meu lado até agora. Foi uma força maior que me orientou para que pudesse pedir ajuda, para conseguir viver. Eu acredito muito em Deus e, em tudo que eu faço, coloco Deus em primeiro lugar. Você tem que confiar em um poder maior, estar bem espiritualmente para aprender a tomar decisões completas. Estando bem espiritualmente, você consegue alcançar sucesso. Mas eu não tenho religião nenhuma. O que eu tenho é muita fé em Deus.

E depois desse trabalho de ressocialização que a ONG fez com você, como é sua vida hoje em dia? Você saiu da pobreza, ainda mora na rua ou acha que se reintegrou definitivamente à sociedade? (Regiane Camargo, José Dilson Oliveira Jr. e Erika Maffei)
Hoje eu trabalho, estudo, tenho minha casa e amigos. É uma vida normal, como a de qualquer outra pessoa. Foi uma conquista superlegal, porque foi tudo fruto do meu esforço. Eu não tive papai nem mamãe para me ajudar. Eu tive que lutar e cada coisa que conquistei foi fruto do meu suor, o que é ainda mais gratificante. Quando é uma coisa batalhada, você dá mais valor.

Você sente saudades dos amigos que fez na rua? (Carolina Teodoro)
Eu sinto muita saudade e me lembro de todo mundo. De vez em quando, vou visitá-los. Mas não posso mais me misturar com eles porque o problema é muito sério. Se eu ficar indo para a Sé direto [Praça da Sé, em São Paulo], vou ver todo mundo roubando, usando droga, e corro o risco de voltar para essa vida rapidinho.

E seus irmãos, você os encontrou novamente? (Juliana Silva, Mariana Andrade e Lorena Passos)
Meu irmão está preso agora, no Carandiru [Casa de Detenção do Carandiru, maior penitenciária do Brasil, com mais de 7.000 presos]. Eu estou tentando ajudá-lo da melhor maneira, só que é difícil, porque, às vezes, a pessoa não quer mudar. Aí fica aquela briga e você acaba tendo que abrir mão mesmo. Eu e meu irmão paramos de ter contato por motivos pessoais. É difícil para a família tentar ajudar uma pessoa que não quer, entendeu?

Quantos anos você tem e em que série está? O que você sentia quando seus amigos de escola a chamavam de favelada? (Ana Carolina Bertholdo, Roberta Souza e José Dilson Oliveira Jr.)
Eu tenho 21 anos e estou no segundo ano colegial. Eu me sentia inferior. Achava que todos eram melhores que eu. Eu não me aceitava e aquilo me doía muito. Esse preconceito me afastava da escola.

O seu principal projeto é passar no vestibular? Em que curso? Você acha que terá as mesmas oportunidades que os outros concorrentes? (Rafael "Lord Kill" Batista, Letícia Marcondes, Ana Carolina Ribeiro, Luciano Meira)
Eu me acho normal como qualquer outra pessoa e me acho capaz de lutar por uma vaga. Já lutei por tudo nessa minha vida. Passar no vestibular é fichinha, não que eu seja CDF. Mas eu vou fazer de tudo para entrar numa faculdade. Eu quero estudar Antropologia e a cultura afro, mas antes quero fazer Comunicação. Isso é uma meta, não uma barreira, e depende do meu esforço, depende de mim. O difícil eu já consegui. O resto é fichinha.

Você acha que uma criança que tem condições parecidas com as que você teve vai conseguir estudar e construir a sua vida? Como você fez isso sem a ajuda de outras pessoas? (Aluno(a) não se identificou)
Depende. É difícil explicar. Mas, se houver ajuda, se houver intervenção para essa criança mudar, ela vai conseguir, sim. Se você fizer um trabalho com ela antes que cheguem os piores problemas, é bem melhor.

Como você virou autora e por que quis escrever o livro? Foi muito difícil escrevê-lo? Você gostou de escrever um livro para contar a sua história? (Regina Albuquerque, Daniela Alcântara, Fernanda Carvalho)
Foi difícil, mas o Gilberto Dimenstein me ajudou, e o cara é um puta escritor, né? Eu cheguei um dia para o Gilberto e perguntei se ele podia me ajudar, do mesmo jeito que estou falando com você, do nada! E ele topou! Mas falar de si mesmo dói... Mexer em todo o seu passado, ainda mais sabendo que milhares de pessoas vão ler. Mas para mim foi um conforto, parece que tirei um peso das minhas costas. Demorou seis meses para eu escrever e dois para entrar na gráfica. Mas foi uma conquista minha. Meu sonho era ser escritora e foi legal.

O que você gosta de fazer, além de escrever? (Aluno(a) não se identificou)
Eu gosto de ler (risos). Gosto de livros que falam da cultura afro e sobre negros. Podem ser de qualquer tipo: livros meio antropológicos, não muito, porque senão eu não tenho paciência (risos), biografias, enfim, livros que falam da vida real.

Você pretende trabalhar com meninos de rua, participar de alguma campanha, como o professor Roberto Carlos da Silva, que ajuda menores carentes? Que idéias você tem para acabar com as crianças de rua no Brasil? (Patrick Lucas, José Eduardo Andrade e Rebeca Hatherly)
Eu trabalho numa ONG que lida com crianças, jovens e adolescentes de diversos segmentos da sociedade: escolas públicas, privadas, instituições, Febem, ONGs, meninos de periferia, meninos que ainda estão na rua. É o Projeto Aprendiz, coordenado pelo Gilberto Dimenstein, que ensina crianças a fazer mosaicos. Esse projeto atende diretamente na Praça da Sé. Mas na rua eu não quero trabalhar. Eu sei que não dá para voltar aos velhos amigos, aos velhos hábitos, porque isso pode me prejudicar.
Para solucionar esse problema das crianças de rua, tem que se investir mais nas pessoas, na família, antes de as crianças irem para a rua. Também é preciso investir mais em projetos sociais, mas não só com menores de rua não. Eu fui menor e hoje sou maior. Quem foi criança hoje é adulto. Tem que melhorar o sistema no Brasil. É preciso um acompanhamento até a pessoa poder se estabelecer. Caso contrário, não adianta fazer trabalho só com criança. É trabalho vão, tempo jogado fora, porque há pessoas que têm 18 anos e não têm aonde ir. As portas são fechadas para eles! E eles têm que se virar, voltar para a rua, roubar e fazer um monte de coisas. Tem muito mendigo louco - mesmo sem usar drogas - porque a vida acaba deixando a pessoa meio biruta. Ela começa a ficar louca, a falar sozinha. Mas um dia esse mendigo foi criança também. As pessoas passam e nem se interessam: "Ah! É mendigo." Mas ninguém sabe o sofrimento dele, ninguém sabe por que ele está nessa situação.

Você, como escritora, tem uma mensagem ou conselho para as crianças do Brasil, especialmente para as que estão passando pela mesma situação que você já passou? (Rebeca Hatherly, Caroline Pedrozo, Julia Souza e Isabela Passos)
Elas nunca devem deixar o sonho morrer porque, se você desistir, se deixar seus sonhos se apagarem, perderá a visão de que pode ter um futuro melhor, de que pode resistir e lutar para isso.

Qual é seu grande sonho? Você já conseguiu realizá-lo? (Julia de Souza)
Eu tenho metas agora e já estou conseguindo realizar o meu sonho. Quando você coloca um sonho em prática, você estabelece metas em cima dele. Meu sonho era ter uma escola, um lar, amigos. Hoje eu tenho escola, lar, amigos, mas preciso investir na minha educação. Mas meu grande é sonho é viver numa sociedade onde haja espaço para todos. O mundo é tão maravilhoso! E Deus escolheu um pedaço para cada um e deu de bandeja para todo mundo. É preciso que haja espaço para todos, é o que eu penso.

Que alerta que você faria para as pessoas que não sabem o sofrimento que você passou, que só vêem as crianças pelo vidro do carro? (Letícia Rosa)
Eu acho que vale mais um minuto de atenção do que um real. Perguntar o que a pessoa está precisando e ajudar, entendeu? Hoje é aquela pessoa, mas amanhã isso pode acontecer na sua própria casa, na sua família. Você tem que estar sempre atento para não fechar as portas e não dar as costas para essas pessoas.

 

 

 





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